O jardim da inovação: especialistas debatem os avanços e os gargalos da tríplice hélice no sul do país

Por Enfato Comunicação
Junho 2, 2026

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A convergência estratégica entre Universidades, Iniciativa Privada e o Poder Público esteve no centro dos debates do painel “A tríplice hélice em ação: quando ciência, setor privado e Estado convergem”, realizado na tarde desta terça-feira no GovTech Summit 2026, em Porto Alegre. Conduzido pela coordenadora do Future GovHub, Daniela Eckert, o painel reuniu referências do ecossistema de inovação do Sul do Brasil: Tony Chierighini, diretor executivo do Celta/Fundação Certi; Dafne Agarralua, especialista de Projetos de Inovação no Sebrae RS; e Rafael Roesler, diretor técnico-científico da Fapergs. 

Os painelistas resgataram o histórico de políticas públicas integradas, detalharam programas de fomento de alto impacto e discutiram de forma realista a principal lacuna que o ecossistema enfrenta atualmente, o “vale da morte”, que separa o nascimento das startups de seu efetivo escalonamento industrial.

Dafne Agarralua propôs uma ampliação do conceito do painel, defendendo a transição da tríplice hélice para a quádrupla hélice, incluindo a sociedade civil como destinatária final e elo central das transformações. “Fazemos inovação, mas para quem? Para quem queremos entregar isso? No Sebrae, nossa missão é democratizar a inovação, ajudando desde startups de base tecnológica até pequenos negócios tradicionais como padarias e oficinas. Através do programa de ativação de ecossistemas locais, oportunizamos aos municípios as ferramentas para impulsionar seus territórios”, destacou.

O pioneirismo de Santa Catarina foi resgatado por Tony Chierighini, que relembrou o papel da Fundação Certi na criação do Celta, a primeira incubadora de empresas de base tecnológica do Brasil, ainda nos anos 1980. Chierighini detalhou que a iniciativa nasceu para frear a “exportação de mão de obra qualificada” das universidades locais. “A universidade formava excelentes engenheiros, mas eles saíam de lá. Existia um vale da morte para sair da academia e chegar ao setor produtivo. Juntamos universidade, empresários e o poder público para criar a incubadora e fazer nascer os ‘filhotes’. Como Florianópolis é uma ilha e não comporta indústrias pesadas, expandimos o projeto para municípios vizinhos criando o CONTECC. Um exemplo disso é a Pedra Branca, em Palhoça, que em 2006 era uma fazenda e hoje é um parque de inovação com mais de 3 mil CNPJs ativos, liderado pela iniciativa privada”, celebrou.

Chierighini também compartilhou o sucesso do programa SINAPSE (que posteriormente inspirou o programa nacional Centelha), uma chamada massiva de ideias inovadoras operada conjuntamente com a FAPESC e a FINEP, que distribui recursos de subvenção e gerou uma verdadeira “gamificação” entre as universidades catarinenses. Ele ainda destacou a Lei de Inovação de Florianópolis, cujo fundo municipal de R$ 4 milhões permite que o recurso de fomento seja abatido diretamente de impostos (como ISS e IPTU) das empresas madrinhas, repassando o capital diretamente para a startup de forma desburocratizada e sem o risco de intervenções jurídicas do Ministério Público.

Representando o braço de financiamento do Estado, Rafael Roesler, diretor técnico-científico da Fapergs,trouxe uma metáfora orgânica para explicar a atuação de uma Fundação de Amparo à Pesquisa (FAP). “O ecossistema de ciência, tecnologia e inovação de um estado é como um jardim. Ele tem que ter uma grama bem cuidada que dá suporte a todo o resto, mas tem a orquídea aqui e o cacto ali. Cada planta exige uma quantidade diferente de água, e o papel da agência de fomento é cuidar de todo o jardim, desde a bolsa de iniciação científica para a garotada na universidade até a subvenção direta a produtos tecnológicos nas indústrias e startups. Se qualquer elo falhar, o conhecimento não se transforma em benefício para a sociedade”, ponderou.

Roesler destacou a profunda revolução legislativa ocorrida em meados dos anos 2000 no Brasil, quando os governos foram autorizados a destinar dinheiro público por subvenção econômica direta para empresas privadas com fins lucrativos. Entre os programas de destaque da Fapergs, ele elencou o Doutor Empreendedor, desenvolvido em parceria com o Sebrae, que convida recém-doutores (em sua maioria mulheres cientistas) a transformarem suas teses acadêmicas em startups de base tecnológica de alto valor agregado. O programa já gerou 107 empresas de base tecnológica no Rio Grande do Sul e duas delas foram as grandes vencedoras globais do South Summit em Porto Alegre, ambas na área de biotecnologia voltada para a saúde humana.

Outro destaque trazido por ele foi o programa Cientista na Indústria, operado em cofinanciamento paritário com a Federação das Indústrias do Estado (Fiergs/IEL), no qual o pesquisador desenvolve P&D dentro de uma grande indústria, sob a coordenação de um funcionário do próprio setor privado, rompendo com o modelo tradicional de coordenação puramente acadêmica.

Foto: Cassius Souza

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