“A verdadeira inovação pública começa quando uma administração desenvolve a capacidade de identificar problemas relevantes para os cidadãos”

A inovação pública deixou de ser uma tendência para se tornar uma necessidade diante dos desafios cada vez mais complexos enfrentados pelos governos. Mais do que incorporar novas tecnologias, transformar a gestão pública exige capacidade de identificar problemas, conectar diferentes atores do ecossistema de inovação e desenvolver políticas que gerem impacto real na vida dos cidadãos. Nesse contexto, as compras públicas de inovação despontam como um instrumento estratégico para impulsionar soluções inéditas, fortalecer empresas inovadoras e tornar o Estado um agente de desenvolvimento.

Nesta entrevista, Sandra Sinde, fundadora da LASINDE, na Espanha, que participou da 3ª edição do GovTech Summit, realizada nos dias 2 e 3 de junho, em Porto Alegre, compartilha a experiência europeia na construção de ecossistemas de inovação aberta e explica por que o sucesso das compras públicas inovadoras depende muito mais de cultura, colaboração e visão de longo prazo do que de investimentos em tecnologia. A especialista também analisa os avanços e desafios do Brasil, aponta prioridades para acelerar a inovação governamental e destaca como a inteligência artificial pode contribuir para serviços públicos mais eficientes, éticos e centrados nas pessoas.

Em sua apresentação, você destacou que a inovação governamental vai muito além da adoção de novas tecnologias. Quais são os principais elementos que um governo precisa desenvolver para criar um ambiente favorável à inovação?

Frequentemente pensamos que inovar no setor público consiste em incorporar novas tecnologias, mas a tecnologia é apenas parte da equação. A verdadeira inovação pública começa quando uma administração desenvolve a capacidade de identificar problemas relevantes para os cidadãos e está aberta a colaborar com o ecossistema para resolvê-los.

Diversas capacidades são necessárias para isso. A primeira é ter pessoas preparadas para trabalhar com metodologias de inovação aberta, elaborar desafios públicos e gerenciar processos de experimentação. A segunda é ter estruturas de compras suficientemente flexíveis para incorporar soluções que ainda não existem no mercado. Também é essencial compreender as tecnologias emergentes, como se conectar com startups, universidades e centros de tecnologia, e desenvolver novas habilidades em áreas como propriedade intelectual, gestão de riscos e mensuração de impacto.

No campo das compras públicas, eu resumo isso como a capacidade de transitar do papel de comprador público para o de investidor público aberto, o que exige o desenvolvimento de três superpoderes: a capacidade de identificar problemas de alto impacto, a capacidade de comprar e a habilidade de conceber políticas públicas eficazes relacionadas a compras e inovação.

Mas, acima de tudo, é necessária uma cultura institucional que fomente a confiança. A inovação envolve abraçar a incerteza, aprender ao longo do processo e aceitar que nem todas as respostas estão dentro da própria administração. Quando um governo deixa de pensar que deve ter todas as soluções e começa a fazer boas perguntas, ele se torna um verdadeiro motor de inovação pública. Essa é a essência da inovação pública aberta: buscar continuamente problemas de alto impacto e cercar-se dos melhores talentos, tanto internos quanto externos.

A Europa já possui experiências consolidadas em compras públicas de inovação. O que diferencia os países líderes nesse segmento e quais aprendizados podem ser adaptados à realidade brasileira?

Os países europeus que atualmente lideram em compras públicas de inovação não chegaram a essa posição simplesmente por possuírem mais recursos econômicos, mas sim por terem construído políticas públicas coerentes e sustentáveis ​​ao longo de muitos anos.

Os países mais bem posicionados compartilham diversos elementos: uma estratégia nacional claramente definida, planos de ação, indicadores para mensurar os gastos com inovação, sistemas de monitoramento, programas de apoio a compradores públicos e mecanismos permanentes de comunicação e capacitação. A inovação deixa de depender do entusiasmo de alguns indivíduos e se torna uma política de Estado.

A Espanha ainda está nesse caminho; em 12 anos, passou do desenvolvimento de projetos isolados ao início da consolidação de um dos ecossistemas de compras públicas de inovação mais avançados da Europa. A principal lição para o Brasil é que não basta aprovar regulamentações; é necessário construir capacidades institucionais, gerar confiança entre todas as partes interessadas e manter uma visão de longo prazo. Ecossistemas maduros não surgem da noite para o dia: são cultivados por meio de colaboração constante e aprendizado compartilhado.

Entre as principais lições para o Brasil, destacam-se a necessidade de uma definição estratégica clara, políticas transversais e setoriais, sistemas de monitoramento e, sobretudo, incentivos e capacidade de assistência técnica. É importante, porém, compreender que o Brasil não está partindo do zero. O país possui uma comunidade GovTech bastante dinâmica, universidades de ponta, empresas de tecnologia competitivas e administrações públicas que já experimentam novos modelos de inovação. O desafio agora não é importar o modelo europeu, mas sim conectar melhor todo esse talento e transformá-lo em um ecossistema nacional de inovação orientado pela demanda. Essa pode ser uma das maiores vantagens competitivas do Brasil nos próximos anos.

A Espanha construiu, ao longo dos últimos 12 anos, um ecossistema robusto de compras públicas de inovação. Quais foram os fatores decisivos para que esse modelo alcançasse resultados tão expressivos?

Provavelmente, a lição mais importante é que o sucesso depende não apenas da realização de mais licitações, mas também da construção de um ecossistema onde todas as partes interessadas desempenham um papel ativo e se comprometem com projetos ambiciosos.

Na Espanha, aprendemos que a demanda pública, as empresas inovadoras, as universidades, os órgãos de financiamento, as organizações de apoio, as autoridades legais e os cidadãos fazem parte do mesmo sistema. Quando essas partes interessadas trabalham de forma coordenada, a inovação flui com muito mais facilidade.

A contratação pública de inovação deixa, então, de ser uma ferramenta isolada e se integra às políticas relacionadas à saúde, mobilidade, energia, transição digital e sustentabilidade. É precisamente essa visão sistêmica que explica grande parte dos resultados obtidos.

Os mais de 250 projetos desenvolvidos na Espanha movimentaram mais de 1,3 bilhão de euros e tiveram forte impacto na área da saúde. Que exemplos de soluções ou transformações geradas por esse modelo merecem destaque?

Além dos números, o que é realmente importante é a mudança de paradigma. A contratação pública de inovação permitiu que hospitais, administrações e órgãos públicos passassem da aquisição de soluções existentes para o desenvolvimento de tecnologias antes indisponíveis.

No setor de saúde, foram desenvolvidas soluções relacionadas a diagnósticos avançados, inteligência artificial aplicada a processos clínicos, medicina personalizada, robótica, novos dispositivos médicos e sistemas de apoio à decisão. Mas o maior valor reside não apenas em cada projeto individual, mas também na capacidade de gerar novas empresas inovadoras, fortalecer o tecido tecnológico nacional e acelerar a transferência de conhecimento das universidades e centros de pesquisa para o mercado.

As PPIs alcançam, portanto, um duplo impacto: melhoram os serviços públicos e, ao mesmo tempo, fortalecem o ecossistema de inovação e a competitividade empresarial.

Você mencionou a importância de provocar a oferta do mercado e promover processos de cocriação. Como governos, empresas e universidades podem atuar de forma mais integrada para acelerar a inovação pública?

A inovação pública não pode mais ser entendida como uma relação tradicional entre comprador e fornecedor. Precisamos construir relações de colaboração contínuas.

Isso significa envolver o mercado desde os estágios iniciais, mesmo antes das consultas preliminares de mercado que antecedem as licitações de parcerias público-privadas (PPPs), por meio de espaços colaborativos com solucionadores de problemas, usuários e cidadãos.

As universidades contribuem com conhecimento científico e capacidade de pesquisa; as startups oferecem velocidade, criatividade e novas tecnologias; as empresas consolidadas contribuem com escalabilidade; e o governo define os desafios públicos e garante que as soluções gerem valor para a sociedade.

Quando todos esses atores trabalham juntos desde o início, o risco do projeto diminui e a probabilidade de alcançar soluções verdadeiramente transformadoras aumenta consideravelmente.

Na sua avaliação, quais são hoje os principais desafios que impedem o Brasil de avançar de forma mais acelerada na utilização das compras públicas de inovação?

O Brasil tem um enorme potencial e já existem exemplos muito promissores. No entanto, o principal desafio reside em conectar essas iniciativas e transformá-las em um verdadeiro ecossistema nacional.

Ainda é necessário fortalecer as capacidades dos agentes de compras públicas, criar mecanismos permanentes de apoio, facilitar a participação de empresas inovadoras, mensurar o impacto dessas iniciativas e construir maior confiança entre as autoridades responsáveis ​​pelas compras, os órgãos de fiscalização e o mercado

Acredito também que seja essencial reconhecer e destacar as administrações que estão assumindo o desafio da inovação. Boas práticas geram confiança e permitem que outras instituições aprendam com as experiências bem-sucedidas e as repliquem.

Você defende que o Brasil precisa levar a compra de inovação para outro nível. Quais deveriam ser as prioridades dos gestores públicos e das instituições nos próximos anos para alcançar esse objetivo?

Acredito que o Brasil tem a oportunidade de dar um salto qualitativo. Nos próximos anos, a prioridade não deve ser realizar mais processos de Licitações Públicas para Inovação, mas sim garantir que cada processo gere maior impacto e possa ser replicado em outras administrações.

Na minha opinião, existem sete prioridades: criar mecanismos para ampliar as soluções existentes; fortalecer os ecossistemas de inovação regionais e setoriais; estabelecer observatórios para mensurar os resultados; simplificar os processos para acompanhar os avanços tecnológicos; integrar as Licitações Públicas para Inovação às estratégias nacionais de inteligência artificial; combinar as licitações públicas com outras ferramentas de inovação aberta, como os programas GovTech e os ambientes de teste (sandboxes); e reconhecer publicamente as administrações que estão liderando essa mudança.

Em última análise, o futuro das Licitações Públicas para Inovação depende da construção de ecossistemas baseados na confiança e na tomada de decisões ousadas, hoje, que transformarão os serviços públicos de amanhã.

A Inteligência Artificial vem transformando diversos setores da economia. Como você enxerga a integração da IA aos processos de compras públicas de inovação e quais cuidados éticos devem orientar essa evolução?

A inteligência artificial representa uma enorme oportunidade para aprimorar os serviços públicos, mas nunca deve se tornar um fim em si mesma. A questão correta não é como comprar inteligência artificial, mas sim quais problemas públicos precisam de soluções em que a IA possa agregar valor.

Por isso, acredito que as estratégias nacionais de inteligência artificial e as políticas de licitação pública devem avançar de forma coordenada. A licitação pública para inovação (LPI) pode se tornar um instrumento fundamental para incorporar soluções baseadas em IA de forma responsável, permitindo experimentação, validação e aprendizado antes de sua ampla implementação.

Ao mesmo tempo, é essencial que esses processos sejam regidos por princípios éticos claros: transparência, proteção de dados, supervisão humana, ausência de viés discriminatório, explicabilidade dos algoritmos e avaliação contínua do impacto social.

A inteligência artificial mudará muitas coisas, mas a verdadeira mudança não virá da tecnologia em si. Ela dependerá da capacidade dos governos de usá-la de forma ética, transparente e com uma abordagem centrada nas pessoas. A IA deve nos ajudar a construir melhores serviços públicos, e não apenas administrações mais digitais. O objetivo final permanece o mesmo: gerar mais valor público e melhorar a vida dos cidadãos.

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