Entre urnas e estádios: como será o placar final?

Por Editorial GovTech
Janeiro 7, 2026

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Modernização do setor público e tecnologia devem ser fatores decisivos nas eleições de 2026

Por: Téo Foresti Girardi, fundadora e CEO do Govtech Lab

Chegamos em 2026 e este ano não será apenas um intervalo burocrático no calendário. Será um ano de ruas coloridas, estádios lotados e palanques acesos. De um lado, o gol decisivo; do outro, a promessa eleitoral. Política e futebol, as duas grandes paixões que movem o ponteiro da emoção coletiva no Brasil, dividirão o mesmo palco.

E, como costuma acontecer nessas janelas, o risco é alto: a racionalidade das instituições pode acabar atropelada pelo improviso e pelo populismo de curto prazo.

Nesse cenário, olhar para o futuro dos governos exige abandonar a ideia de que tecnologia é “fetiche” ou que inovação é apenas um slogan bonito. Precisamos entender como a modernização do setor público se tornou, sem alarde, o fator de desempate silencioso do esquema tático eleitoral.

O governo como time: gestão ganha jogo, discurso ganha curtida

No futebol, o talento individual isolado raramente levanta a taça. Títulos são frutos de leitura de jogo, estratégia e fôlego para a temporada inteira. Em 2026, os governos sentirão o mesmo peso. O eleitor está exausto de narrativas grandiosas; ele quer a experiência real: o serviço funcionou? Foi rápido? Resolveu o problema sem criar três novos?

Inovação pública, na prática, é sobre dignidade. É o serviço que funciona sem humilhar o cidadão, sem obrigá-lo a repetir sua história em cinco guichês diferentes. Quando o Estado deixa de ser um obstáculo burocrático para se tornar um suporte invisível, ele gera algo raro em ano de eleição: confiança. E confiança vale muito mais do que retórica de campanha.

O paradoxo é que a melhor inovação é aquela que ninguém nota, porque ela simplesmente “anda”. Assim como um meio-campo eficiente, que raramente vira manchete, mas define o jogo, o governo que entrega bem cria um impacto eleitoral silencioso, mas profundo.

O Estado como plataforma: quem controla o sistema dita o debate

Há um ângulo menos óbvio nessa discussão. A inovação também redesenha quem tem voz. Dados abertos, inteligência artificial e novas plataformas de participação mudam a forma como as decisões são percebidas. Em 2026, a disputa não será apenas no corpo a corpo das ruas, mas na própria arquitetura dos sistemas públicos.

Governos que dominam essa infraestrutura operacional ganham vantagem competitiva. Mas cuidado: a inovação não é neutra. Ela redistribui poder e define novos vencedores. Em ano eleitoral, isso ganha outra camada: a tecnologia pode ampliar a democracia ou apenas sofisticar a exclusão.

“Inovação sem acesso é apenas um jeito moderno de manter os mesmos privilégios de sempre. Toda escolha técnica é, no fundo, uma escolha ética — e toda escolha ética acaba se tornando política”

TÉO FORESTI GIRARDI

Fundadora e CEO do Govtech Lab

O mito da “tecnologia salvadora”

Existe uma crença confortável de que a tecnologia pode compensar uma má gestão. Em 2026, essa ilusão tende a ruir. Inovação amplifica o que já existe; ela não esconde buracos, mas coloca um holofote neles. Governos competentes tornam-se exponenciais; governos frágeis tornam-se visivelmente obsoletos. Sistemas digitais não camuflam a incompetência; eles a escancaram em escala.

Assim como o VAR no futebol, a modernização pública deixará claro quem governa com método e quem vive de improviso. O eleitor sente no bolso e no tempo quando o Estado falha. E quando a falha é constante, a ruptura com o governante não acontece por ideologia, mas por pura exaustão.

O jogo real de 2026

Talvez o próximo grande ciclo não seja decidido por quem grita mais alto, mas por quem sustenta melhor o cotidiano. A escolha mais importante não será entre narrativas opostas, mas entre modelos de cuidado institucional.

O ano não será decidido apenas por paixões momentâneas, mas pela capacidade dos governos de demonstrar que sabem jogar o jogo longo: planejar, executar e entregar valor público. A pergunta decisiva não é se a tecnologia influenciará o voto — isso já é um fato consumado. 

A questão incômoda é: estamos preparados para escolher governos capazes de gerir sistemas complexos, ou continuaremos a eleger apenas os melhores narradores do jogo?

Téo Foresti Girardi é doutora em Design e Tecnologias pela UFRGS e CEO do GovTech Lab.

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