Estônia: como o país se tornou referência em governo digital

Com identidade digital, votação online e integração de dados, a Estônia transformou a relação entre cidadãos e governo e se consolidou como um modelo de serviços públicos digitais

Quando conquistou sua independência da União Soviética, em 1991, a Estônia precisou reconstruir praticamente toda a sua estrutura estatal. Ao invés de replicar modelos tradicionais, o país decidiu investir na tecnologia para criar um governo mais eficiente, acessível e econômico. 

Em entrevista à CNBC, a ex-presidente da Estônia, Kersti Kaljulaid, que governou o país entre 2016 e 2021, explicou a lógica por trás dessa decisão: “Nosso setor público, nosso governo e nossos funcionários públicos queriam oferecer serviços de boa qualidade à população. Fizemos isso imediatamente de forma digital porque era simplesmente mais barato e mais fácil.”

Mais de três décadas depois, com cerca de 1,4 milhão de habitantes, a estratégia transformou a Estônia em uma referência global em governo digital. Atualmente, mais de 99% dos serviços públicos podem ser acessados pela internet. Declaração de impostos, prontuários médicos, prescrições eletrônicas, abertura de empresas, emissão de documentos e até o pedido de divórcio podem ser realizados de forma digital.

Um dos pilares dessa transformação é a identidade digital (eID), considerada um marco internacional em segurança digital. Com ela, os cidadãos acessam praticamente todos os serviços públicos por meio de uma única identidade eletrônica, garantindo praticidade e altos padrões de segurança.

Outro destaque é o programa e-Residency, que permite que empreendedores de qualquer lugar do mundo abram e administrem empresas registradas na Estônia sem precisar morar no país. A iniciativa ampliou o alcance da economia digital estoniana e consolidou o país como um ambiente favorável para negócios globais.

A infraestrutura tecnológica também desempenha um papel fundamental nesse ecossistema. O sistema X-Road conecta, de forma segura e escalável, centenas de bases de dados dos setores público e privado. Isso permite que diferentes órgãos compartilhem informações de maneira integrada, evitando que os cidadãos precisem fornecer repetidamente os mesmos dados em diferentes serviços.

Mesmo processos tradicionalmente burocráticos passaram por uma transformação digital. O pedido de divórcio, uma das últimas etapas da administração pública a ser digitalizada, pode ter sua solicitação inicial realizada em menos de um minuto.

Outro exemplo de inovação é o i-Voting, sistema que permite aos eleitores votarem pela internet em eleições nacionais. Durante o período eleitoral, o cidadão utiliza sua identidade digital para acessar o sistema e registrar seu voto de qualquer lugar do mundo. Antes da apuração, a identificação do eleitor é desvinculada da cédula eletrônica, preservando o sigilo do voto.

A Estônia investiu em utilizar a tecnologia para tornar a relação entre governo e cidadãos mais simples, segura e transparente. Com essa abordagem, o país se consolidou como um dos principais exemplos de transformação digital no setor público e inspira governos ao redor do mundo que buscam modernizar seus serviços e fortalecer a confiança da população.

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